DuvidoLogias

Agosto 18, 2008

Reflexão

Arquivado em: poesia — Tania @ 1:12 pm

Soberba estrada atalhada na linguagem
Que leva aos turvos requintados labirintos
Até a nascente dos motivos e rebuscados instintos
Candeia qu’ilumina a alma na paragem

Dolente andança por templos e paços
Colecionando reminiscências da viagem
A formar a consciência e seus regalos
Brigando, impaciente, com a bagagem

Claudica, pede esmola mas não pára
Impõe urgência no fazer da sua vontade
E se esfola no dizer que se resvala

Por fim constrói, altiva, a liberdade
Expôe a essência idiossincrásica
E experimenta aquela alegria básica

Agosto 13, 2008

O adulto maduro para Allport

Arquivado em: psicologia do desenvolvimento — Tania @ 7:25 pm

Considera-se um indivíduo maduro aquele cujos principais determinantes de comportamento são um conjunto de traços organizados e congruentes que surgiram de um equipamento motivacional esparso característico do infante.

Allport dizia que “aquilo que dirige o comportamento, dirige agora”, não sendo necessário conhecer a história do impulso para podermos compreender sua operação. Em grande parte, o funcionamento desses traços é consciente e racional. O indivíduo normal sabe por que faz e por que não faz as coisas. Seu comportamento ajusta-se a um padrão congruente. Não é possível compreender o indivíduo sem uma visão de seus objetivos e de suas aspirações. Seus motivos mais importantes não são ecos do passado, mas desafios do futuro. Em muitos casos, sabe-se o que a pessoa fará se se conhecer seus planos conscientes, mais do que suas memórias reprimidas.

Allport admite que esse quadro é idealizado. Nem todos os adultos  alcançam a plena maturidade. Há adultos cujas motivações conservam traços infantis. Nem todos os adultos parecem guiar seu comportamento em termos de princípios claros e racionais. Contudo, se sabemos até onde eles evitam a motivação inconsciente e até que ponto seus traços são independentes das origens infantis, temos a medida de sua normalidade e de sua maturidade. Somente em indivíduos seriamente perturbados encontraremos adultos agindo sem saber por que, cujo comportamento está mais intimamente ligado a ocorrência da infância do que a acontecimentos do presente ou do futuro.

Em contraste com a maior parte dos teóricos da personalidade, cujo interesse predominante se volta para o lado negativo do ajustamento, Allport leva em conta as qualidades que determinam um ajustamento mais do que simplesmente “normal” ou “adequado”. A personalidade madura deve ter, acima de tudo, uma extensão do self, isto é, sua vida não deve estar estreitamente ligada a atividades relacionadas com suas necessidades imediatas e com seus deveres. Tal personalidade deve ser capaz de envolver-se em uuma ampla variedade de atividades. Suas satisfações e frustrações devem ser muitas e diversas em vez de poucas e estereotipadas. Uma parte importante dessa extensão do self envolve projeção no futuro - planejamento, perspectiva.

Para alcançar a maturidade, o indivíduo deve também possuir auto-objetivação. Allport acredita que existem dois principais componentes desse atrivuto, humor e discernimento. O discernimento refere-se à capacidade do indivíduo para compreender-se, embora não se conheça um padrão adequado com o qual possam ser comparadas as opiniões do indivíduo. O senso de humor inclui não apenas a capacidade para ter alegria e prazer nos momentos próprios, como também a habilidade para manter relações positivas consigo mesmo e com os objetos amados e, ao mesmo tempo, descobrir as incongruências e os absurdos a eles relacionados.

A maturidade implica a posse de uma filosofia de vida. Embora o indivíduo deva ser capaz de objetividade e ainda capaz de tirar proveito das ocorrências de sua vida, ele deverá manter uma linha de completa seriedade, que dê propósito e significado a tudo quanto faça. A religião representa uma das fontes mais importantes de filosofias unificadoras, mas não a única.

Análise crítica:

Allport representa um dos poucos teóricos que provê uma ligação efetiva entre psicologia acadêmica e suas tradições e o campo da psicologia clínica e da personalidade. Essa continuidade enriquece as subdisciplinas e ajuda a manter a continuidade intelectual no desenvolvimento da psicologia. Allport adverte que o passado não explica tudo a respeito do indivíduo, pois a psicanálise ou o clínico muitas vezes esquecem a importância dos determinantes do momento e dos que hão de vir, em favor da determinação histórica. Por outro lado, a teoria de Allport não é adequadamente formal para permitir a comprovoção empírica de proposições. A teoria presta-se mais à tentativa de explicar as relações conhecidas do que a predizer ocorrências não observadas. É falha como recurso formal para produzir pesquisas. Allport volta-se inteiramente para o lado psicológico, para o inter-relacionamento de todo o comportamento, porém não reconhece o inter-relacionamento do comportamento e da situação ambiental na qual opera o comportamento. Allport atribui muita importância ao que ocorre dentro do organismo e dispensa pouca atenção ao impacto sedutor e coercitivo das forças externas. Faltou-lhe uma visão mais ampla no sentido antropológico e sociológico para melhor situar sua teoria na realidade.

Bibliografia:

- G. Allport. A personalidade madura. In: Personalidade. p.345-385. ed. E.P.U. e EDUSP. SP. 1961

Agosto 10, 2008

A constante mutação da civilização

Arquivado em: psicologia social — Tania @ 4:08 pm

À medida que a história da civilização avança, as formas de dominação vão se transformando e se adaptando aos interesses e exigências de cada época. Mas o exercício de poder nunca deixou de existir. Desde suas origens, as relações sociais já possuíam contradições e conflitos de interesses.

A modernidade e o futuro próximo são caracterizados pela transição de uma forma de dominação designada disciplinar para a dominação de controle, na qual a diferença básica consiste na expansão do controle exercido sobre a população de sistemas fechados, como as escolas, hospitais, empresas para um controle mais sutil e abrangente exercido sobre a subjetividade, a interioridade de cada cidadção.

Na sociedade disciplinar, há uma supervalorização do trabalho, do esforço fatigante e da superprodução. A filosofia de vida do trabalhador é estar sempre se superando e produzir cada vez mais e melhor. Já a sociedade de controle privilegia a venda e a imagem dos produtos, valoriza a produtividade independente e se foi preciso um grande ou pequeno esforço para tal.

A empresa moderna percebeu que o domínio era mais eficiente a partir do incentivo às pessoas fazerem o que desejam e que também seria interessante para a empresa, pois os indivíduos são naturalmente ambiciosos e desejam ser produtivos, eficientes e, assim, aprovados pelos demais.

A sociedade moderna investe no potencial humano, na inovação, no trabalhador participativo, comunicativo e motivado a tomar iniciativas que lhe beneficiem e também à empresa e à venda de seus produtos.

A subjetividade tornou-se um objeto de estudo, investimento e fonte de novos problemas e doenças na sociedade, conforme os valores - que são subjetivos - e a autoridade - que representa os limites que cada cidadão não deve ultrapassar - tornam-se cada vez menos palpáveis e determinados e tudo começa a ser questionado. As opções de escolha das pessoas aumentam , assim como os conflitos e responsabilidades relativas ao livre-arbítrio.

As relações ficam mais complexas, os sexos quase se igualam quanto a direitos e deveres, não se sabe mais qual papel é de quem e, assim, surgem também as psicopatologias da modernidade, como a neurose da excelência, depressão, ansiedade, transtorno do pânico, bulimia, anorexia…

O corpo humano possui um valor como nunca teve antes. Contraditoriamente, também é objeto de agressão como nunca. A forma de dominação deixa de ser repressora e proibitiva e passa a ser incitadora dos instintos - da ética do dever para a ética do desejo, a mentalidade torna-se libertária, narcisista, competitiva ao extremo.

A importância da mídia é fundamental no exercício de poder contemporâneo. O sujeito é cercado por todos os lados por propagandas, informações que quer e que não quer e fica mais imperceptivelmente à mercê dessa “era da tecnologia”, pois é preciso aderi-la para sobreviver na sociedade capitalista. Difícil é conseguir manter-se sujeito dono de si, com certo controle e consciência de seu tempo, espaço, de sua vida, sem se entregar de corpo e alma a todas as exigências da cultura.

O filme “O show de Truman” - show da vida no qual o diretor produz um show 24 horas, sendo o personagem principal alienado da verdadeira realidade de sua vida e submetido a viver a história que lhe foi imposta sem ter consciência de que sua vida é um palco de divertimento para o resto do mundo - é um bom exemplo desse controle sutil e bastante sedutor dos meios de comunicação. O diretor manipula a curiosidade dos espectadores, argumentando que Truman vive em um paraíso onde qualquer um gostaria de viver. No fim do filme, Truman descobre a farsa e chega à porta que delimita o mundo externo e o que o manteve trancado por todos os anos. É interessante notar que nessa hora o diretor diz que conhece Truman mais do que ele próprio e sabe que Truman está com medo e que não vai sair pela porta porque pertence àquele mundo. É aí que o personagem rompe a relação de controle e mostra que, apesar de sua vida ter sido analisada pelo diretor o tempo todo, ele é um sujeito com pensamento e idéias próprios e capaz de escolher o caminho que deseja seguir.

A sociedade atual vive, portanto, um período de mudanças e instabilidades, marcado por progressos notáveis assim como novos problemas. Cabe a cada sujeito não se deixar encaixar em rotulações ou perspectivas muito pessimistas ou muito otimistas e lutar para construir uma percepção real, porém não sem esperanças, da vida e poder aproveitar as oportunidades de prazer que lhe são oferecidas, sempre considerando a natureza e o contexto em que está inserido.

(mais…)

Julho 29, 2008

Psicanálise e Fracasso Escolar

Arquivado em: psicanálise — Tania @ 9:05 pm

A criança, antes de possuir uma mínima aptidão para a leitura e escrita, já possui uma escritura em seu inconsciente. Esta referindo-se à inscrição de uma marca do impossível de se saber, quando ocorre o recalque primário e é formado o Aparelho Psíquico. Essa perda primordial, da possibilidade de se saber sobre tudo mostrará à criança o real da falta, a castração, o Outro é castrado. O que importa na formação de sua personalidade é o modo como ela vai encarar esse saber a menos, que, segundo Freud, gira em torno do mistério da morte e do sexo.

O caráter da criança constitui-se como o efeito de como esse sujeito experimenta a curiosidade sexual. Quanto mais indagações, melhor o prognóstico. Mesmo que nunca se vá obter respostas completas, é interessante e saudável o perguntar. Freud descobriu que a curiosidade sexual antecede a intelectual. Mas não pode ser satisfeita toda, gerando o fracasso das investigações infantis. A maneira da criança lidar com esse fracasso, aceitando-o ou recusando-o, influenciará em seu desejo subsequente de saber mais, de conhecer. Há, portanto, estreita relação entre saber, desejo e conhecimento. “As perguntas intermináveis das crianças são verdadeiros circunlóquios que vêm em substituição a uma pergunta que a criança nunca faz.”(Freud)

Inibição, sintoma e sublimação correspondem às vicissitudes que a pulsão toma frente ao fracasso nas investigações sexuais infantis.

Na inibição, o sujeito evita a angústia conscientemente não exercendo a função(no caso, a função intelectual). Há uma restrição da função. Evita-se novas formas de recalcamento. A criança mostra-se indiferente ao aprender, parece que não há desejo, não aprender não é problema para ela. O acesso ao desejo não ocorre sem angústia. Na inibição o sujeito evita angústia a todo custo, então parece não haver desejo. É uma defesa psíquica.

Já no sintoma, a função é exercida. A atividade intelectual existe, embora seja distorcida e não livre. Há o retorno do recalcado, que é incosciente. A função é erogeneizada inconscientemente. A representação emerge de forma distorcida através dos mecanismos de deslocamento e condensação pelo processo primário. O sintoma corresponde a um enigma, uma referência clara ao inconsciente. O conteúdo recalcado é associado à atividade intelectual emergindo como um sintoma - por exemplo a compulsão por pesquisa. Profissionais percebem, na clínica, que um sujeito com inibição quando começa a suportar certa angústia produz sintoma. Este é o mais fácil de ser trabalhado, pois já há certa aceitação de angústia, a qual é inevitável em qualquer aprendizagem.

A sublimação é a vicissitude mais saudável por não possuir qualidade neurótica. O sujeito apenas desvia a curiosidade sexual para outra curiosidade (intelectual, artística, atlética…). É a melhor saída para a pulsão.

Julho 17, 2008

Desenvolvimento Organizacional - (D.O.)

Arquivado em: psicologia social — Tania @ 6:28 pm

O Desenvolvimento Organizacional baseia-se no gerenciamento micro, estratégias macro e sistema aberto. Flutuações aleatórias mudam o rumo das coisas. A empresa precisa estar aberta ao seu planejamento de médio e longo prazo, mas não pode desconsiderar tais flutuações.

A cultura organizacional, que é a coordenação das diferentes atividades, determina o clima geral na empresa. A do tipo mecânica foca-se no indivíduo, uma hierarquia rígida e rígida divisão do trabalho. A orgânica preza pela equipe, uma hierarquia flexível, independência e responsabilidades compartilhadas e negociações. Para que haja mudança na organização, é necessário o desenvolvimento de equipe e um projeto de sistema matricial.

Com a mudança, torna-se possível a amplição do cargo, que muda conforme o projeto a ser desenvolvido. O detalhamento dos cargos faz parte do perfil profissiográfico.

O D.O. possui como objetivos aumentar a confiança dos membros da equipe; confrontar posição, pessoal, usar o conflito(como fonte de produção) para o desenvolvimento em organização. Por exemplo: um bom gerente pode tornar um mau conflito em um bom conflito(um conflito produtivo). A autoridade é sustentada pela sua habilidade, seu conhecimento… Com a comunicação lateral(fofocas), a gerência tende a perder controle. O sistema matricial propicia o clareamento da comunicação lateral(diminuindo as fofocas, que são mecanismos neuróticos de angariar afeto, mostrar poder- que não têm - para denegrir a imagem de alguém; aparecem como demonstração do sentimento de inveja, projeção de inferioridade, baixa auto-estima e denuncia uma instituição imatura, fogueira de vaidades).

O D.O. também visa à motivação, satisfação, responsabilidades compartilhadas, à sinergia (proliferação de determinadas atitudes, potencialização de uma ação positiva). A idéia pra montar o D.O. melhora a interação entre os grupos, entre os membros; propicia clareza de sentimentos, uma visão sistêmica entre os indivíduos, equipes e organização.

Dicas de livros:
- “Entre o Cristal e a Fumaça”, Henry Atlan
- “Do caos à inteligência artificial”, epistemologia da ciência
- “Entre o buraco e o avestruz”, Luis Davi Castiel
- “Moléculas, moléstias e metáforas”, Luis Davi Castiel
- “A medida do possível - risco, saúde e tecnobiociência na pós-modernidade”, Luis Davi Castiel

Abril 6, 2008

Dúvidas? Quem não tem que me indique as respostas!

Arquivado em: reflexão — Tania @ 2:22 pm

* Às vezes a mente pede respostas e só o que tenho a replicar é indagar-lhe duplamente. Sem a pretensão de ser atrevida, porém com a curiosidade de quem usa ‘fraldas’ no conhecimento existencial.

. Quantas vezes uma criança cai antes de conquistar a destreza no andar?
. Quantas dores e sofrimentos sofre alguém que um dia considera ter uma vida feliz?
. Quão desagradável e pedante é um papo com um adulto que não conheceu a frustração?
. Como se sente um fracassado quando diz, com a melhor das intenções e vontade de acreditar em seu dito: agora vou vencer, vou subir nem que seja um degrau, ainda que esteja dizendo pela centésima vez, porque agora é diferente, quero realmente! E escuta das pessoas mais próximas e amadas: qualé? conta outra! Você nunca vai mudar, sempre diz e nunca teve resultado, muda o repertório!
. Esses dizeres são familiares a alguém?
. Quem garante que há repetição eternamente?
. Quem garante que a tendência à repetição vence a perseverança?
. Quantas pessoas venceram um objetivo na primeira tentativa?
. Qual o valor da vitória?
. Alguém gosta de perder?

- Teste sua capacidade de reflexão:
. O forte pode ser o mais fraco. Verdade ou mentira?
. O fraco pode ser o mais forte. Verdade ou mentira?
. O forte pode ser o mais fraco. Mentira ou verdade?
. O fraco pode ser o mais forte. Mentira ou verdade?

Que pena o fato de ser tão difícil me compreender… Sinto tanto por isso!
Estou, de certa forma, sozinha. Todavia a vida, a morte, as escolhas são singulares e solitárias. No que se refere à minha particularidade, a responsabilidade é toda minha e é meu direito assumí-la. Também estou ciente de que ninguém é obrigado a simpatizar-se com minha pessoa. Mas jamais abrirei mão de minha diferença e liberdade de opinião.

Dezembro 15, 2007

Teoria do caos- não é só um elemento, é a estrutura cultural.

Arquivado em: psicologia social — Tania @ 8:54 pm

No inicio, o individuo preocupa-se com o salario(necessidade fisica), depois passa a ficar antenado para os cargos, status. Em qualquer organizacao

O sujeito disciplina suas pulsões através da arte para contemplar o mundo. Hoje não há mais tempo pra isso, colocar os sentidos pra funcionar, fazer valer a força de trabalho - que é vendida por um salário,que deve ser sustentado por um valor de mercado.

Toda mercadoria sustenta-se por dois valores : o de uso e o de troca. O capital sustenta-se pelo valor de troca,”status”, fetiche da sociedade. Por isso gera tanto mal-estar, inseguranca.

Dezembro 13, 2007

O caos -1

Arquivado em: psicologia social — Tania @ 7:53 pm

O caos do trabalho na sociedade do espetáculo

No inicio, o individuo preocupa-se com o salário (necessidade física), depois passa a ficar focado para os cargos, status. Em qualquer organização há jogo de poder, o que determina quem ganha o quê. É muito desagradável a situação de um empregado que sabe que ganha mais e o outro que sabe que ganha menos. Afinal, como funciona a questão do salário na instituição, como ele é inserido na empresa? Por que um indivíduo ganha X ou Y?

O que se diz ser atualmente a pós-modernidade, expressão até engraçada, como se a velocidade tivesse chegado ao ponto de nos colocarmos numa sociedade do futuro (pós), pois a modernidade se modernizou tanto que pediu um apelido pra se diferenciar. Pois é, vivemos no futuro, sempre atrasados, milhões de informações a adquirir, “updates” de “gadjets”, mulheres, carros, linguagem, bares, viagens e por aí continua…

O que significa modernidade? Bom, estar atrasado por se viver o presente em detrimento da moda de se viver no “futuro” e estar sempre “updatado”? Talvez o apelido alta modernidade seja um pouco mais coerente, não?!

Toda mercadoria sustenta-se por dois valores: o de uso e o de troca. O capital sustenta-se pelo valor de troca, status, fetiche da sociedade. Por isso gera tanto mal-estar, insegurança. O valor de uso é praticamente inexistente no mundo do capital.

A força de trabalho é vendida por um salário, que deve ser sustentado por um valor de mercado. O cálculo ocorre pelo valor de troca, o dominante. Como isso tudo funciona?

Primeiro não se deve descartar todas essas mudanças profundas que vêm ocorrendo ou correndo no trabalho, nas relações, sexualidade, família, subjetividade e demais instituições vigentes.

Lembremos os principais processos de mudanças, tendências, realidades…

- Globalização da economia; a Era da Biologia; o triunfo do Indivíduo (este passa a ser o valor supremo, acima de qualquer coisa); o Renascimento das Artes; a Liderança das Mulheres; a Nova Sociedade de Serviços; a Nova Era do Lazer; o Envelhecimento da População Ativa; a Década do Cérebro; o Nacionalismo…

Subversão de valores:


. 1 - Auto-realização, imediatismo

↑2 - Status, aparências, fetiches

↑3 - Função, resposta à Demanda Social

↑4 - Segurança- financeira, espacial

↑5 - Necessidades fisiológicas

- O novo comportamento no ambiente; o fim da profissão; novas qualificações; exigência de ampliação do conhecimento e informação; a necessidade de atualização permanente; baixa da qualidade de vida com vistas à quantidade; busca incessante e exageradamente ansiosa de aperfeiçoamento pessoal e conseqüente aumento do julgamento crítico e cobranças por vezes de fazer tombar de tanto rir ou chorar…

Resultado? A produção do ser humano revolucionário, perdido no meio de tantas instituições reacionárias. Isso tudo mexeu com o fundamento da economia, implicando uma mudança radical na vida. Tudo se encontra pronto, porém caro, o consumo cresce assim como a demanda social de novas qualificações, ampliação do conhecimento e informação. O padrão de vida esperado é muito elevado, o povo não consegue pagar por essa qualidade de vida. Assim, a economia torna-se volátil, movimenta demais, criando toda a insegurança da perda da profissão, o imperativo de nunca poder cessar a aprendizagem. Surge, consequentemente, o “famoso” stress, depressão, transtornos de ansiedade, crises existenciais sobre qual o sentido da vida. As pessoas perdem qualidade de vida e passa a buscar apoio na espiritualidade, no aperfeiçoamento pessoal ou se refugiam no álcool, drogas, antigos hábitos nada construtivos…

A violência aumenta, assim também a população carcerária, a insegurança, a fragilidade e desconfiança dos indivíduos em todas as relações humanas. Se o capital não tiver ética, o resultado provável beira o fim do mundo. O que fazer com isso agora?

Muitas vezes o sujeito disciplina suas pulsões, energia, através da arte para se contemplar o mundo naquilo que não há valor de capital, não se troca, porém o deixa próxima à Natureza, a sua natureza humana de não ser perfeito, robô, da percepção de que por mais que conquiste nunca atingirá o ideal imposto e introjetado pelas informações em torrentes e falta de tempo pra parar, pensar, refletir, curtir a própria companhia, conhecê-la… Pimp! Uau! Eu também sou gente, não trocaria este momento de paz e completude por dinheiro ou emprego algum. O que fiz com minha vida? Deixei que pensassem por mim, decidissem o que é o melhor porque a maioria o faz? Logo eu, que tanto critico a sociedade, estou subsumido por ela e ensinando, cobrando assim dos meus filhos. Não, não preciso de tanto, meus filhos nunca pediram brinquedos nas datas de festa e nem assim… -Pai, o presente que eu escolhi foi ter você torcendo por mim no campeonato de futebol da escolinha quinta depois da aula. Pode? Puxa, eu achava um pouco estranho porque ele poderia pedir video-games ou o que quisesse, apenas disse claro, é “só” isso? …

Hoje não se tem tempo para sentir de verdade a vida, a família, colocar de fato os sentidos pra funcionar. Tudo gera em torno da mercadoria, insegurança, mal-estar. A mídia põe medo nas pessoas o tempo todo. Não é mais sociedade industrial, agora é a sociedade de serviços. Necessita-se trabalhar muito e ter boas férias. À medida em que parte da sociedade enriquece, perde-se a habilidade social. A solidão domina. As faces estão mais frágeis, desconfiadas até da própria sombra.

A criatividade, a imaginação, a vontade de mudar, inovar requer coragem, mas compensa com a grande abertura que ficou para os poucos que aproveitam a pouca concorrência nesse setor. “O perigo que o homem moderno sofre é pensar sobre a modernidade.” (Giddens)

Entendendo um pouco sobre o funcionamento da economia social que não se explica na TV, porém se impõe sutilmente, podemos notar a importância e objetivo do que se chama, atualmente, Desenvolvimento Organizacional(D.O.). No próximo!

→ sugestão de leitura: http://www.touteleurope.fr/fr/observatoire-europe/europe-en-idees/ouvrages/le-nouveau-modele-europeen.html?xtor=EPR-10 (artigo)

• livro: Le nouveau modèle européen (Anthony Giddens)

-outros: http://www.amazon.fr/exec/obidos/search-handle-url/403-9374811-7326815?%5Fencoding=UTF8&search-type=ss&index=books-fr&field-author=Anthony%20Giddens

Outubro 26, 2007

Psicanálise, Nerval, psicose ‘and so on’…

Arquivado em: psicanálise — Tania @ 9:42 pm

“às vezes um charuto é apenas um charuto”

“A agressividade é a tendência correlativa de um modo de identificação que chamamos narcísica e que determina a estrutura formal do homem e do registro das entidades características de seu mundo” (Lacan in:’L'agressivité en Psychanalyse’-1948 )

A aflição diante do risco de perder os outros é anterior à própria relação com os outros.

“A fonte de água pura deve poder ter seu curso seguido até as montanhas cobertas de neve.” (um ditado tibetano)

Entendo que devemos tentar despertar de tudo que causa sofrimento, e o que aprendemos devemos repassar pura e autenticamente para as outras pessoas, tudo que aprendemos de bom.

“Somos nossos próprios mestres, somos nossos próprios inimigos. Ética: autodisciplina, treinar a mente e as ações assim como as emoções.” (Buda)

Não acredito em bom tradutor ( ainda que de si mesmo) que não seja bom escritor. A tradução pode chegar a ser mais difícil, no entanto de menor valor sempre, que a autoria de uma obra. Escrita boa é a que perfura o âmago do leitor e desperta as mais puras sensações.

“(…)Sou os subúrbios de uma cidade que não existe, o comentário prolixo de um livro que ninguém jamais escreveu. Não sou ninguém, ninguém. Sou o personagem de um romance ainda a ser escrito e flutuo, aéreo, disperso, sem ter sido, entre os sonhos de um ser que não soube me acabar.” (F.Pessoa)

A consciência da realidade crua e nua pode ser mais avassaladora que qualquer imaginário possível do que seja a morte. Viajando aqui para a época da Grande Guerra, sobreviventes eram acometidos por algo de vergonha por não terem morrido com os companheiros. Sentiam um enorme vazio de si e a vivência do limiar da morte, podridão e demais misérias humanas ao vivo e em cores. A maioria dizia que, não fosse pela família, preferiam ter morrido junto e acreditavam que o mereciam e seria o mais justo.

“Todos os escritores são vaidosos, egocêntricos e ociosos.” (George Orwell)

Viver / morrer lembra-me o estranho / familiar de Freud. Não estamos sempre vivendo e morrendo simultaneamente? No entando, ninguém concorda que sejam sinônimos. Dizem ser complementares. Eu, em minha loucura, diria: morte é vida vírgula. Morte é vida exclamação reticências. Pois se vida não é morte, vida é, ponto final. Ou que sentido faria?!

“Aquele que busca salvaguardar o equilíbrio narcísico por meio de um arranjo particular em sua relação com o outro, ou afasta-se do mundo dos outros vivido como uma ameaça para tão frágil equilíbrio, ou apega-se aos outros, demonstrando uma sede de objeto que só é saciada na presença daquele a quem incumbe a função de refletir a auto-imagem fugaz. Nesse caso, o que está em questão é a sobrevivência psíquica. A criação de uma representação de si mesmo remete-nos à necessidade imperiosa para o ser humano de transceder o hiato constituído pela alteridade, exigindo que o fora faça parte do mundo interno em algum lugar do psiquismo.” (João A. Frayze-Pereira)

Às vezes creio que meu viver seja escrever. Porém se escrevo arrisco-me a érder o siso nas profundezas do hiato entre as palavras e minha subjetividade. Fica uma angústia mortífera do desistir de escrever e o arriscado e não menos mortífero caos do sucumbir por escrever. Colapso! Break down! Beco da excelsa solitude! Narciso vitorioso e sem causa ou explicação. De todo modo, a derrota essencial da estrutura.

Por que não me ensinaram a brincar de amor? Ao menos por que proibiram-me de aprendê-lo espontaneamente e me fizeram crer que, por ligar-se à sexualidade e ato sexual, que era feio, perigoso e errado? Por que proibiram-me de tocar no assunto até o ponto em que eu me convecesse e tivesse desconfiômetro para parar de perguntar e fingir que não existe ? O mesmo em relação às minhas emoções, até que, paulatinamente, eu me alienasse sobre elas e consequentemente sobre mim. Por que com meu irmão tudo foi tão diferente, liberado e estimulado?

“…que eu desconstrua meus pequenos amores, a ciência de me deixar amar sem amargura, e que me dêem a enorme incoerência de desamar amando. E, lembrando-te, fazedor de desgosto, que eu te esqueça. “

Tomei um fora bem quando estava imbuída de Shakespeare. Dramatizei a realidade. Caí de cabeça na loucura da paixão, ignorante.

“Havia inocência em seu sorriso, enquanto caminhava rente ao precipício.” (Herbert Vianna)

Qual a minha idade? Se eu for expressar tudo que guardo na memória que me está tão acessível, levarei muito mais tempo que os anos que tenho de vida. Lembranças intensas, nítidas, férteis, prazerosas, dolorosas, angustiantes, curiosas, vividamente tensas e emocionantes, como um mar em fúria, sem um ano sequer de remanso e brandura.

Agosto 23, 2007

Pra ninguém enjoar… Gérard de Nerval de novo

Arquivado em: psicanálise — Tania @ 8:06 pm

Parece que quanto mais se toma consciência da própria loucura, mais insuportável fica, maior o sofrimento - moral, mental, físico e,por vezes, espiritual. É meio paradoxal: percebe-se o distanciamento do senso comum, social e, ao mesmo tempo, uma aproximação da Verdade, a( in?!)desejada e nunca totalmente conhecida (mal?)dita ou (bem?)dita Verdade. Quão complexo!

“(…) parecia que eu sabia tudo e que os mistérios do mundo se revelavam a mim nessas horas extremas.” (Nerval)

O delírio, muitas vezes, é o menor dos males… Freud o analisa e sintetiza tão bem pelo estudo das memórias de Schreber. Uma tentativa de elaborar um “auto-mundo” tolerável, o instinto de sobreviver a um eu/outro odiado. Porém, uma tentativa malograda por Lei, por fado talvez.

“Morrer… dormir… dormir… sonhar, talvez… É aí que bate o ponto. O não sabermos que sonhos poderá trazer o sono da morte, quando ao fim desenrolarmos toda a meada mortal, põe-nossuspensos.” (In: “Hamlet”-1601)

Romântico ou trágico?! Os dois?! Bom, voltemos a Nerval e o tema loucura, morte, vida e afins…

Creio ter experimentado um delírio maníaco sobrenatural semelhante em certos aspectos ao de Nerval. Como se fosse a defesa (ainda que arcaica) última contra a extremosa desistência da ‘Santa Esperança’ (sempre supostamente a última a morrer, eu quis passar à sua frente) . Talvez possam dizer que eu queria acabar de vez com o jogo de xadrez do filme “O Sétimo Selo” exatamente por tê-lo assistido em companhia do meu amado rejeitante… Oh! Mas fado é fado, Lei é Lei. Malogro! A sensação não é em nada agradável, um pânico infinito de tortura iminente. Pensamentos invadem a mente como Verdades Abaolutas e Inquestionáveis . Cheguei a acreditar que todos os homens queriam me estuprar e todas as mulheres queriam me matar. Vale ressaltar que eu não fazia idéia de quem fosse Freud, nem tinha ficado sabendo da existência de algo chamado Psicanálise nesse tempo. Eu era adolescente fazendo intercâmbio. Pensava que tudo que acontecia estava relacionado à minha mente e todos sabiam o que eu pensava. O que as pessoas diziam era como se fossem códigos metafóricos para me enganar. Foi assim o começo de meu delírio maníaco de que eu era santa e tudo o que houvesse feito de errado era culpa da sociedade que fazia um complô para me corromper e destruir. Acreditei firmemente que o fim do mundo estava próximo. Salvariam aqueles que conseguissem se perdoar; os demais ficariam no eterno tormento do sentimento de culpa e sofrimento extremo. Já faziam mais de seis meses que eu estava na Oceania e minha família, meu la, aqui na América. O pior foi quando me lembrei deles no delírio, com medo de algum deles não se salvar. Assim, minha desorientação no tempo, espaço, linguagem apenas foi aumentando e queimando como fogo no peito.

Nerval, por sua vez, pensou ter se tornado”muito grande e que, inundado de forças elétricas, derrubaria todo aquele que de mim se aproximasse”(s.i.c.)

Pensei que era Filha de Deus, assim como Jesus foi o Filho. E teria uma missão tão dolorosa quanto a de Jesus. No fundo, eu só conseguia pensar que daria qualquer coisa e faria qualquer coisa para que meus pais se salvassem dentro do meu delírio.

Seria tudo isso minha esforçada malograda vontade de conceituar a tal da saudade? Talvez Freud explicasse, pena que não pôde me dizer. Ê saudade!!!

“Por toda parte morria, chorava ou agonizava a imagem sofredora da Mãe eterna”(Nerval

Em meu caso, acreditei que, para conseguir assegurar que toda minha família se salvaria, ou seja, perdoariam-se e seriam redimidos, eu teria que enfrentar o que fosse para mim o mais abominável tabu. Nem tente imaginar… O fazer e o pensar confundiam-se em minha cabeça. Temi mais por minha mãe, por ela ser mais sensível, tinha o hábito de não compartilhar seus problemas e preocupações, chorava escondida no banheiro e tinha uma tendência a auto-depreciação e baixa auto-estima. O pensamento acelerava, o sentimento mais ainda. Tinha também meu pai, já meu irmão era um anjo, santo como eu - confundi tudo, mas naquele momento era essa minha realidade. Sofri dias, semanas a fio incessantemente. Conjeturo que só sobrevivi devido aos momentos de euforia na parte maníaca de Santa Salvadora no delírio. Tinha a consciência limpa, sabia que estava diferente. Ao contrário do que todos apostaram e fizeram tudo quanto exame tivesse, não havia nenhuma substância química exceto as produzidas internamente. Eu não tomava nem coca-cola. Não fumava ou bebia e nunca tinha visto ou sequer pensado em outras drogas. Na época, jogava tênis competitivo e sonhava ser profissional. Bom, é por isso que lembro tão bem, minha consciência estava completamente clara. Nem fiquei feliz ao ver meus pais e meu irmão quando estes foram me buscar, eu não os queria naquele meu mundo cruel.

“Eu” dividia-se em ora demônio ora santa. Meu humor acho que quase se solidificou, ops, brincadeirinha… É que alternavam choros agudos e sufocantes com altas gargalhadas constantemente nesse período. Ninguém entendia, muito menos eu. Nem existia tal “eu”. Quem era esse “eu”? Nerval também sofreu essa sensação de divisão, auto-irreconhecimento e o sempiterno ‘Quem sou eu’ ?

“Então é verdade(…), nós somos imortais e conservamos aqui as imagens do mundo que havíamos habitado. Que felicidade sonhar que tudo o que houvéssemos amado existirá para sempre em torno de nós!” (Nerval)

Pensei que sofreria todas as torturas que lembrei da aula de História com a professora mostrando as imagens argh. Chorei e passei a mão nos olhos. Saía sangue. Bom, nem preciso contar o que minha fértil imaginação não elaborou com tudo isso, para descobrir muito depois que era apenas um capilar que havia se rompido por eu esfregar com tanta força os olhos.

Claro que não terminarei a história, pois eis que dela faço parte e, ademais, “sempre que alguém quer esgotar um assunto esgota a paciência do leitor”(Oscar Wilde).

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